Sobre os efeitos da generosidade
Nesses tempos recentes algumas coisas tem rodado a minha mente. As principais são: a necessidade de arranjar um emprego estável e a de ter recursos para poder deixar a casa de meus pais. Elas naturalmente derivam da situação estranha que quase uma década de dedicação à vida espiritual deixou no meu histórico profissional.
O medo de uma vida econômica instável ronda todos nós, mas no fundo é apenas isso: medo.
Paralelo a essa situação, uma das atividades que passei a realizar nas horas vagas é ajudar uma pequena ONG que ajuda a alimentar moradores de rua: algumas doações e algumas horas cozinhando aqui e ali.
Algo que me interessou foi a alegria de alguns dos que veem receber a doação. Não são todos, é claro, mas muitos deles ainda tem muita vida apesar da situação difícil em que estão.
A comida é boa. Feita com o que é possível angariar na semana, respeitando os valores de oferecer uma quantidade capaz de matar a fome (sempre uma porção generosa) e uma qualidade razoável (não costuma faltar legumes ou carne). - E não posso deixar de falar que alguns dos cozinheiros são 👍
Receber doações materiais é algo de praxe para quem vive em situações difíceis, mas talvez a doação de maior importância ali seja o amor recebido.
A realização sobre essa história, e que me trouxe a vir escrever este texto, me veio outro dia: De que se todos os meus medos em relação à minha vida econômica e profissionais se realizassem até as últimas consequências, e abandonado, fracassado, sem emprego e despido de posses viesse a morar nas ruas, até nessa situação ainda haveria lugar para uma pequena luz. Que uma vez por dia poderia passar na ONG e comer aquela mesma porção de comida, e ter a mesma felicidade daquelas pessoas que eu ajudo hoje. Que ainda haveria a possibilidade de ser feliz.
A partir daí meu medo diminuiu. E foi a conexão com os ensinamentos do Buda que me deram a cartada final. O ensinamento do Buda número um para contrapor o medo é espalhar amor, para todas as pessoas e para todas as direções. Não se pode ter medo no lugar onde há amor. E sem saber meu medo foi curado quando, sem querer, acabei espalhando amor para a parte da vida que eu temia: viver em uma situação econômica difícil.
A solução, às vezes, está ali onde menos esperamos. E talvez as lições mais simples da vida sejam as mais importantes.

Belo texto. As condições sempre se reunem para que nossas necessidades sejam atendidas. O segredo está em praticar portanto o desapego para que essas necessidades sejam cada vez menores?
ReplyDeleteMeu entendimento é que a gente pratica o desapego para que a gente sofra menos.
DeleteMas é possível ter uma situação material boa e estar desapegado, os discípulos leigos do Buda como Anathapindika e Visaka eram exemplo disso.
A nossa associação de desapego e pobreza material não é 100% acurada, se achamos que não é possível ter bem estar material e ser desapegado, é por que não entendemos nem desapego nem as coisas materiais.
Acho que é assim em relação a coisas materiais e a prática.
Mas um pouco de simplicidade material às vezes ajuda também.