Ansiedade por meditar?
Às vezes vejo algumas pessoas reclamando que a prática de meditação despertou nelas mais ansiedade e insatisfação do que tinham antes, que criou mais problemas do que curou. Não foi particularmente meu caso quando comecei a meditar, mas não é raro isso.
Algumas pessoas gostam desse mergulhar na noite escura e reconstruir da vida, ou até veem esse como o caminho espiritual verdadeiro.
Mas embora isso seja um tanto comum por aqui, comparo com os praticantes que conheci na Tailândia e quase nenhum deles apresentava esse perfil na prática. Tal comparação me trouxe a vir escrever esse texto.
De fato muitas pessoas tem sua vida organizada e pronta e quando encontram um caminho de autodescobrimento muitas certezas caem por água abaixo. E é nesse tipo de situação que a busca espiritual apresenta esses sintomas de ruptura e ansiedade.
Talvez o principal fator que desencadeie isso é o de encontrar com uma filosofia de vida (seja budista ou outra vertente espiritual) totalmente fora de contexto.
Imaginem (ou até lembrem), de casos onde do nada as pessoas entendem que espiritualidade não é temor a Deus? Que talvez não tenhamos uma alma? Que nosso sofrimento é nossa responsabilidade e que nós mesmos temos que resolver, e não outros seres?
Tais rupturas e a consequente sensação de isolamento que segue por não encontrar no dia a dia amparo, compreensão, ou referências para todas as ideias e sentimentos que essa pessoa passa a adotar, são a principal fonte dessas ansiedades.
Essas mesmas rupturas não aconteceram para quem já cresceu num ambiente que já adotava essas ideias e posturas em relação à vida. Ou seja, talvez não seja a prática espiritual adotada que perturba, mas sim sua existência desamparada de apoios externos.
Carregamos verdades que não podemos contar para nossa mãe, por exemplo, ou que temos dificuldade de expressar. E isso causa um atrito entre nosso mundo interno e extreno.
Para quem cresceu em um ambiente de adoção cultural dessas novas ideias espirituais que adotamos não há esse desamparo e isolamento. Não ouve transição abrupta.
Tal é uma das principais causas de problemas que costumo apontar nos praticantes que conheço daqui: falta de contexto, falta de comunidade, falta de partilha, de amizades espirituais.
Essa pode não ser a única causa de problemas, mas faz sentido refletir: a prática budista, fora do contexto budista, pode acabar sendo uma prática fora de contexto.

Primeiramente, muito obrigado pelo texto.
ReplyDeleteGostaria de que o senhor pudesse elucidar melhor o seguinte trecho:
"Essa pode não ser a única causa de problemas, mas faz sentido refletir: a prática budista, fora do contexto budista, pode acabar sendo uma prática fora de contexto."
Seria portanto de essencial importância participar de uma sangha para manter a prática budista?
Obrigado
Oi!
ReplyDeleteÉ essencial ter amigos no caminho, não necessariamente uma sangha monástica.
O Buda fala que 'amigos na prática' são todo o caminho, pois são os amigos que te levam a praticar.
como Aristoteles diz: "O homem é um ser social, está em sua natureza viver em sociedade"
E o ditado popular diz: "me diga com quem tu andas que eu te digo quem vocẽ é".
Então ir no mosteiro, cozinhar para os monges e conhecer as pessoas que lá tambem ajudam, é tão importante quanto meditar.
Era mais ou menos isso que eu pretendia expressar ali.
Muito obrigado!
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