Sobre praticar na medida certa
Uma das principais histórias dos discípulos do Buddha é a história de Sona, o discípulo considerado como o melhor no quesito esforço. Diz a história que Sona era de uma família nobre, vivendo no puro luxo. Inspirado pelo Buddha, ordenou-se. Depois de sua ordenação passou a exercer o máximo de esforço possível na prática, andando descalço por caminhos pedregosos, etc.
Uma noite, Sona estava se dedicando à meditação andando até de madrugada, quando o Buddha viu o que ele estava fazendo e foi dar-lhe um ensinamento. O ensinamento que ele lhe deu tornou-se o principal símile até hoje para abordar a questão: Ele perguntou a Sona se ele antes de ordenar-se era um músico experiente, ao que Sona respondeu que sim. Então o Buddha prosseguiu perguntando: “quando as cordas do instrumento estão muito frouxas elas produzem bom som”. Sona Respondeu que não. “Quando as cordas estão muito tensas elas produzem bom som?”. Novamente, Sona respondeu que não.
A expansão do significado disso foi que, se o praticante realiza esforço muito fraco, a prática não se concretiza. Mas o mesmo acontece se o esforço for exagerado. A maioria das pessoas pode dedicar-se mais à prática do que estão acostumadas, e devem olhar pelo lado da corda frouxa. Mas não é raro pessoas que são naturalmente dedicadas, talvez um pouco idealistas, e em alguma medida cabeças duras (como já foi meu caso, devo confessar). Que vão experienciar o oposto, o caso da corda tensa.
Ter a prática em bom tom é algo muito importante. Muitos cresceram no budismo olhando para mestres de semblante sério, que sentavam diretamente na pedra por dias a fio. Mas esta foi a prática deles em um determinado momento. Não foi a prática deles o tempo todo.
Muitas kilesas se escondem por trás do que consideramos como ‘prática correta’, por que o nosso entendimento da prática não é conhecimento direto dela. Ele passa por um filtro de nossas ideias. E frequentemente nossas ideias estão camuflando coisas como ego, sentimento de superioridade e teimosia.
Se você acha que está do lado frouxo, não deixe de tomar as medidas necessárias para corrigir isso. Mas o mesmo vale se você acha que está do lado tenso.
Se chegou naquele ponto do retiro em que você sentou três sessões imaculadas com a firmeza de uma pedra, dê-se um tapinha nas costas, vá tomar uma água e olhar a paisagem, por que as contas foram pagas e você merece descansar.

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